Sul do Brasil ajuda a manter o equilíbrio e o clima do planeta

23/02/2015 12:39

Globo repórter

 

Região no Sul do Brasil ajuda a manter o equilíbrio e o clima do planeta

Aves migratórias do mundo inteiro descobriram, há muito tempo, a importância do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, que fica à beira do Atlântico.

 

O derramamento de lava que cobriu continentes e abriu rachaduras no meio dos campos, deixou marcas até no litoral. Grandes paredões se levantam de dentro do mar e enfeitam a cidade de Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul. E ao longo de milhares de anos ganharam contornos caprichosamente trabalhados pelas ondas.

Na beira da praia, as rochas esculpidas em lava vulcânica, formam grandes monumentos naturais, os únicos do tipo no Brasil. Um deles, com cerca de 30 metros de altura, parece uma torre de segurança, sempre de olho no mar. É por isso que a faixa de areia ganhou o nome que tem: Praia da Guarita.

A praia está dentro de um parque de 350 hectares, protegido por lei. O oceano não moldou apenas as pedras à beira da praia. Há milhares de anos, o mar invadia as regiões mais baixas da costa do sul do Brasil e quando o nível do Atlântico recuou, deixou para trás muita beleza.

O rio faz a curva e deságua na lagoa que está na região há mais de 5 mil anos. Uma área de muito vento transformado hoje em energia. Tanta água atrai vida. Os biguás não resistem: e como gostam de um banho de sol. Não são os únicos. No rio Mampituba, bem na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o Globo Repórter vai ao encontro dos visitantes mais famosos da região.

A menor unidade de conservação marinha do Brasil, a Ilha dos Lobos, tem o tamanho de dois campos de futebol. Durante boa parte do ano, ela abriga uma população de lobos e leões marinhos que vem de bem longe. Do sul do continente até um pequeno pedaço de pedra são até 800 quilômetros de viagem. 

“Eles permanecem cerca de 11 meses do ano. Partindo janeiro e fevereiro para a costa uruguaia. E estes outros dez meses sempre tem uma frequência bastante grande de animais na ilha”, conta o chefe da unidade de conservação da Ilha dos Lobos Ney Cantarutti Junior.

E é um prazer vê-los nadar. E um alívio. Até bem pouco tempo atrás eram caçados, principalmente na Argentina e no Uruguai, pela carne e a pele.

“Estima que mais de 80% da população tenha sido caçada nesses países. Então, exatamente a Ilha dos Lobos também é um refúgio, embora não exista mais caças nestes países vizinhos, mas mesmo assim é uma área importante para eles descansarem”, explica o biólogo Paulo Ott.

Nas águas escuras da lagoa, o colorido rosa surge em bandos. Manobras perfeitas, bem perto da água. Às vezes parece um balé meio desajeitado. E logo, a marcha dos flamingos se transforma em grande revoada.

240 espécies de aves vivem ou passam parte do ano na lagoa

É no Sul do Brasil que se encontra uma das áreas úmidas mais importantes do país. Uma região alagada tão fundamental, que ajuda a manter o equilíbrio e o clima de todo o planeta. Com quase 37 mil hectares, o Parque Nacional da Lagoa do Peixe fica à beira do Oceano Atlântico. Uma paisagem feita de dunas imensas e banhados impressionantes.

“Isso gera uma abundância de vida, uma riqueza fantástica. E as aves migratórias, há muito tempo atrás descobriram a importância deste ambiente. Então elas fazem uma viagem fantástica e dependem exclusivamente deste lugar para se reabastecer”, diz o chefe do Parque Nacional da lagoa do peixe Hellen Rocha.

As aves vêm de quase todos os cantos das américas. O flamingo vem do Chile, Peru, Bolívia e Argentina. O Maçarico foge do frio do Canadá e viaja cerca de oito mil quilômetros para se alimentar e descansar. Ao todo, 240 espécies vivem ou passam parte do ano na lagoa, atraídas pelo calor do sol e por esta água meio turva e supernutritiva.

São as águas agitadas e geladas do Atlântico que ajudam a formar o paraíso das aves migratórias. Elas viajam quilômetros de distância, porque sabem, por instinto, que a água salgada que é jogada através de um canal lá para dentro da lagoa, é a receita perfeita de um banquete que garante a sobrevivência.

O rio que liga o mar à lagoa chega a ter dois metros de profundidade. E traz tanta comida, que muitas aves se alimentam em pleno voo.

“Em duas, três semanas que permanecem nesta região aqui, já recuperam o seu peso, e às vezes até duplica. Encontram um banquete aqui. Assim que os canadenses estavam definindo que isso aqui é um restaurante a céu aberto”, afirma a bióloga Maria Virginia Petry.

Restaurante a céu aberto e lugar perfeito para aumentar a família. Os ninhos estão na areia e no meio das águas. Chegar até eles é uma aventura. O Globo Repórter acompanhou o trabalho dos pesquisadores e biólogos do Instituto Chico Mendes. O objetivo aqui é verificar como as populações de aves se reproduz. Cruzando a vegetação de banhado, avançamos até o local onde os gaviões fazem os ninhos.

Andar lá dentro não é muito fácil. Mas daí de repente a gente começa a olhar, perceber, que na verdade é um grande jardim de água cristalina.  E é possível encontrar muita vida lá dentro. No meio da lagoa há um ninho flutuante, com quatro ovinhos. Dá para ouvir a mãe, lá atrás, reclamando que tem gente pertinho. Mas a equipe do Globo Repórter sai para não atrapalhar este paraíso, este refúgio, que é só deles.

Conforme a equipe vai chegando, eles vão levantando voo, no meio do junco, que é onde eles põem os ovos. É um alerta: eles fazem um ruído, não é muito forte, mas é uma forma de espantar um possível predador. Os pesquisadores anotam tudo. Enquanto isso, a revoada de gaviões dá um show no fim da tarde.

No dia seguinte, novas aventuras. Na beira do mar, um laboratório sobre rodas se aproxima. Os pesquisadores da Unisinos, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, se preparam para uma pesca diferente. Eles armam redes ao vento para capturar aves. Agora é esperar o sol desaparecer no horizonte e ver o resultado da pescaria.

O laboratório poderia ser comparado a uma espécie de alfândega para as aves que vêm de fora. Só que em vez do passaporte, a narceja argentina e o maçarico canadense recebem anilhas e passam por um exame de sangue. 

É para saber se eles não trazem problemas na bagagem, como o vírus da gripe aviária, que poderia contaminar a produção avícola por exemplo. Em quatro anos, 600 aves já passaram pelas mãos desta equipe e até hoje, nenhuma ameaça foi encontrada.

Amanhece na lagoa. Em um campo próximo, as emas aproveitam o dia de sol. Disputam espaço e exibem a plumagem. Um pedaço da paisagem é feito por um campo de dunas espetacular. Um lugar tão protegido, onde só o vento toca a areia e altera o tamanho e o movimento destas montanhas. Um lugar de beleza e quietude.

A areia muda de lugar o tempo todo. E cria formas inusitadas, esculpidas pelo vento e pela água. Algumas mexem com a imaginação: parecem cogumelos ou seriam doces em camadas? Além da equipe do Globo Repórter, o farol solitário é o único sinal da presença do homem por lá.

E antes da equipe ir embora, ela encontrou mais um morador da região: um siri pra lá de corajoso, brigão mesmo! Parece disposto a defender, com garras bem afiadas, este lugar tão cheio de vida.

 

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